Ele observava a cidade impassível.
Seus olhos claros já haviam visto muitas eras
desde o alvorecer dos tempos, mas nada se comparava ao que estavam para
contemplar. O grande Evento, aquilo que fora profetizado por todos os povos ao
redor do mundo, não importando raça ou credo.
Ainda tinha esperanças de encontrar sua
juventude perdida, pois somente com suas forças restauradas poderia se
perpetuar além do acontecimento vindouro. Sem ela não poderia nem mesmo
enfrentar o próprio destino.
Mas não havia com o que se preocupar. Ela
estava ali. Sua juventude estava naquela cidade. Havia sido trazida para lá a
mais de duzentos anos, e lá jazia desde que a o local fora fundado.
O velho sorriu. Como ele, um deus, pudera tão
facilmente perde tanto poder?
Deveras a culpa fora totalmente dele, pensava. Ele descuidara de sua imortalidade
por amor aos humanos.
Vivera longos anos em meio as suas tão amadas
criações. Conhecera o amor carnal e através dele gerou uma linda filha. Filha qual fora capturada nas armadilhas de
seu mais terrível inimigo e quedara-se de amor pelo vilão. Além de tomar-lhe a
cria o sórdido o exilou de seu reino, pois como poderia ele lutar com um deus
tão mais jovem, com os poderes em plenitude?
Balançou a cabeça,
como que para espantar os fantasmas do passado. Deveria agora se concentrar em
sua missão, nunca estivera tão próximo de seu objetivo. Não poderia abalar suas
emoções e por tudo a perder.
Pondo as mãos nos
bolsos e erguendo a cabeça o homem respirou fundo. A tempestade estava chegando.
O céu estava limpo, sem nuvens e repletos de estrelas, mas logo a tormenta
chegaria. Ele sabia, afinal, já fora o pai dos elementos.
De forma calma e
displicente o velho observou o chão lá em baixo. O prédio onde se encontrava, o
Circolo Italiano, média cerca de 170 metros e do topo a calçada distava 151
metros. Aquele era o segundo maior prédio
da cidade e devia ser alto o suficiente para sua transformação.
No auge de suas
forças o deus podia se transforma em segundos, mas agora as coisas estavam mais
difíceis, demoradas.
Era uma madrugada tranqüila e ninguém deveria
avistá-lo. Seria terrivelmente tedioso ter de alterar a memória de um humano se
fosse visto, mesmo os deuses devem seguir um protocolo, ele não podia chamar
atenção.
Recuando o corpo
como um leopardo o homem tomou impulso para saltar da beirada do prédio. Com
uma agilidade incrível o velho transpôs o parapeito e se precipitou para o
abismo.
No meio da queda
algo impressionante aconteceu. Uma luz prateada envolveu o homem e dela surgiu
uma forma delgada e com longas asas brancas. A transformação estava completa. Em sua verdadeira forma o deus acreditava que
poderia encontrar sua juventude antes do amanhecer...
Afinal, ele era
Quetzalcóatl, o poderoso Kukulcán, a eterna Serpente Emplumada.
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